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segunda-feira, 28 de junho de 2010

OPINIÃO

O ENEM ESTÁ DE VOLTA: ESTUDANTES, FAÇAM SUAS APOSTAS!

Darci Secchi*

Estão abertas as inscrições para a Copa ENEM 2010. A UFMT deverá manter os mesmos critérios do ano passado. A decisão é controversa e foi sintetizada com maestria por um calouro recém convocado: “Bisar o bizarro é bisonho e bice-bersa...”. Criativo!

A novidade desta vez é que a administração superior não foi pega de calças curtas. Agora conhece o conteúdo do pacote. Se segue abdicando do direito de escalar o time, tem suas razões, imagino.

Os estudantes também parecem conformados. Como acontece em outros rituais de passagem, os neófitos aceitam se submeter a procedimentos aparentemente estúpidos - no caso, a uma guilhotina virtual - porque sabem que ela determina o lugar que ocuparão no cenário acadêmico. O que fazer se a regra é essa!... Pois então, que venha o ENEM com sua parafernália de editais, senhas, códigos, ranques e todas as convocações possíveis, no tempo regulamentar e na prorrogação. Outra chance, só no próximo ano.

Sob essa ótica, os calouros vivem a nova experiência estudantil de formas bem distintas. Compartilho aqui algumas expressões que escutei nos últimos meses: “Foi um sonho realizado; Vivo um inferno; Estou me energizando; Me sinto aliviado; Acho tudo isso um porre; Estou num momento adverso; Espero que a chuva passe” e por aí vai...

Como se percebe, o modelo de classificação do ENEM resulta em turmas, ou melhor, em aglomerado de alunos encantados e desencantados, aflitos e conformados, desanimados e esperançosos, enfim, com sentimentos e expectativas contraditórias que tendem a ser dirimidas com o tempo. Enquanto isso, os Cursos seguem seu curso.

Visto de perto, esse caminho parece coerente, uma vez que possibilita aos calouros manter um vínculo institucional enquanto aguardam o resultado dos próximos exames. Quem estiver insatisfeito ou incomodado pode se retirar a qualquer tempo ou aguardar o próximo ano!...

É evidente que essa forma peculiar de resolver problemas pode trazer consequências indesejadas para as políticas educacionais. Vejamos alguns dados recentes colhidos dentre os estudantes de Pedagogia classificados no último ENEM:

a) Das 45 vagas abertas no período matutino, apenas 40 foram efetivamente ocupadas. A desejada ‘ampliação de vagas’ não se concretizou;

b) Após três meses de aulas, já ocorreram doze desistências, isso é, mais de 25% das vagas abertas, o que corresponde ao triplo da média histórica para os quatro anos do Curso;

c) Dos 39 estudantes que chegaram a freqüentar a sala de alua, 84% (33 pessoas) afirmaram que não tinham o Curso como primeira opção e 81% não o tinham nem como segunda opção. Menos de 20% queriam Pedagogia, os demais efetuaram matrícula apenas para garantir o vínculo;

d) Perguntados sobre a participação num novo ENEM, 38% (15 pessoas) declararam que certamente farão o exame e 10 estudantes (26%), que provavelmente o farão. Apenas 14 estudantes (36%) declararam que não pretendem se inscrever neste ano;

Por fim, dados surpreendentes que indicam o aumento de 250% da presença masculina no Curso. O mesmo percentual verifica-se para estudantes já graduados. Teriam os homens e os profissionais de outras áreas descoberto o prazer de trabalhar como ‘tios’ na educação infantil, ou como alfabetizadores nos anos iniciais do ensino fundamental? O futuro dirá! Como se vê, é hora de novas apostas!

Em tempo: Pedagogia é um Curso consolidado na UFMT, com prestígio e demanda crescentes. Foi classificado entre os melhores pela avaliação do MEC e apresenta um coeficiente de desempenho excelente. Tal condição foi alcançada em parceria com o Programa de Mestrado e Doutorado em Educação após décadas de dedicação e comprometimento de toda a comunidade educativa. A recente mudança nos critérios de seleção dos alunos promovida pelo ENEM poderá solapar essas conquistas.

PS: Enquanto relia este texto, fui informado que mais uma aluna desistiu do Curso. Agora já são 13 baixas em apenas três meses... Treze desistências.

Treze, um número emblemático!

*Darci Secchi, doutor em Antropologia, professor do IE/UFMT

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